ESCRAVOS DA VISÃO e a estética rock de volta

No finalzinho do ano, em meio àquela correria de sempre, pós-enchente em Santa Catarina, Patricia me chamou para mais um texto para a Catarina, quem sabe usando o tema da edição que era o Rock. Escrevi o texto junto com o Petrelli, Marco Aurélio Petrelli que é designer e também professor da Univali. A Catarina n. 20 está chegando às bancas essa semana. Dá uma olhada na capa. O texto segue logo abaixo!

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Você já imaginou um mundo sem música? Difícil, hein? A música é algo que está presente de forma bastante intensa na vida de cada um de nós, seja consciente ou inconscientemente, pois ouvimos sons e músicas em alguma parte do dia. Ela é uma manifestação que, assim como a moda, reflete os valores e os anseios de uma sociedade. Certo? Os dois movimentos, pelo menos no que diz respeito ao século XX, sempre estiveram muito ligados e não é difícil observar que os dois assuntos têm a ver com comportamento. O modo de se vestir de uma pessoa ou de um grupo mostra um pouco da sua personalidade e, sem dúvida, esse modo de vestir vai revelar o seu comportamento, seus valores e suas atitudes. O mesmo se pode dizer em relação à música. Seus gostos musicais, suas preferências dizem um pouco da pessoa. Juntos, moda e música vão ajudar a construir as impressões que temos, as imagens das pessoas como uma forma de linguagem.
Além disso, temos uma outra forma de expressão (já que vivemos numa sociedade baseada na aparência, não será difícil compreender tudo isso) que também mostra esses movimentos, tem como uma de suas funções comunicar mas que se mistura muito bem com esses outros dois elementos, que é o design gráfico.
Basta olhar para o lado e perceber que estamos falando de algo tão presente em nossas vidas, quanto o simples ato de escolher um CD… vestir uma camiseta… calçar um tênis… comprar um livro. Por vezes, não nos damos conta que, o que realmente estamos fazendo, são opções estéticas representativas de nosso estado de espírito.
Não obstante ao universo da música e da moda, a busca pela afirmação da personalidade, dos valores, das crenças, enfim, do comportamento do indivíduo, também é foco do design gráfico, promovendo através de elementos estético-formais, a representatividade gráfica de valores tangíveis e intangíveis. Percebe-se então um universo interdependente, complementar, composto por elementos constitutivos de um único propósito: IDENTIFICAÇÃO.
Não se sinta incomodado então, com a estampa de uma camiseta, com as cores de uma embalagem, com o encarte de um CD… acredite ou não…eles foram concebidos com o propósito de chamar a sua atenção, afinal de contas, dizem alguns especialistas, somos bombardeados com aproximadamente 3000 mensagens de marketing por dia. Como diferenciar-se neste campo de batalha então? A linguagem gráfica não deve ser utilizada como mero “embelezador” e sim, deve ter alma, conteúdo. Deve atingir ao seu público de forma a criar uma relação emocional; deve contar então, uma história. Acreditamos ser interessante usarmos nossa imaginação e nos transportarmos para um outro mundo; um mundo regido por padrões que estabeleçam uma única forma de comunicação visual. Uma única estética, cor, formas, padrões, estilo. Imaginemos como seria realizada a escolha por produtos nas gôndolas de um mercado? E como seriam então as vitrines das lojas? Impossível, diriam os mais céticos, mas acredito que ao vislumbrarmos esta realidade alternativa possamos valorizar as nossas diferenças.
Nessa questão, sempre lembramos aquele ditado. “Gosto não se discute, se lamenta”. Ok, mas o que isso tem a ver com moda, música e design gráfico? Não se discute aqui se tal coisa é boa ou ruim, mas que somos indivíduos que buscamos o tempo todo nos expressar, buscamos expressar nossos gostos, nossas vontades através do que consumimos, de como nos vestimos, etc. E esse indivíduo vive o tempo todo sendo puxado de um lado para outro. Se, num extremo, existe a máxima da diferenciação, do ser único, por outro existe a necessidade de identificação com outros da sociedade ao mesmo tempo em que somos abertos à mudança. Então, aqui temos alguns elementos para refletir algo que, no momento que se propôs pensar em música para escrever este texto, apareceu o link com o design gráfico e as estéticas influenciadas pelo rock que estamos vendo nos últimos meses por aí.


Sem dúvida que há muito, a cultura underground e a cultura de rua, de uma forma geral, influenciam a moda (e muitas formas de expressão visuais) e marcam momentos na música. Desde seu surgimento, o rock é um dos bambambãs nessa história e vemos as suas diversas divisões marcando momentos da nossa história que são revisitados a todo instante, através de releituras, homenagens etc. Onde queremos chegar é exatamente nas estéticas das peças de design gráfico relacionadas com a moda, de alguma forma, inspiradas em referências do rock e dos anos 80/90.
Você já percebeu como esses elementos têm aparecido de uma forma bastante intensa nos últimos tempos? Começou com o grafite e todos esses elementos mais “sujos”, mais “pesados”, e o que se vê hoje está evoluindo nesse caminho. Em alguns momentos algumas peças parecem capas de discos da Cindy Lauper, da Madonna (aliás, como não poderia deixar de ser, hein?) com o uso de cores fortes (será new wave?), fontes escritas à mão parecendo vindas de muros pichados e até modelos (na verdade a própria moda está caminhando junto nisso tudo porque muito do que se vê por aí em termos de vestuário também fazem referencia a essa época) com cabelos loiros esbranquiçados, espetados e curtos como a modelo Agyness Deyn (Aggy) que virou ícone da última temporada. Vide a campanha do novo perfume de Jean Paul Gaultier, este também uma referência da moda dessa época.



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A Colette, famosa loja parisiense que conspira a favor da moda, das artes e da música, reuniu diversos produtos entre roupas, acessórios, livros, revistas e CDs trazendo esses elementos “sujos”, “pesados” e que a gente adora! E ainda, a Printemps se uniu a Vogue francesa, sob o comando de Carine Roitfeld, para reafirmar a parceria entre o rock e a moda – a Rock Couture. Do final de agosto até início de outubro, a loja de departamentos parisiense colocou em suas vitrines e na sua coleção os elementos do rock.


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Será que esses já não são elementos suficientes para consolidar essa relação, dizer que tudo caminha junto e que as nossas vontades e nossas expressões, por mais individuais que possam parecer, sempre estão associadas ao tal do inconsciente coletivo. Ontem queríamos uma coisa, hoje queremos ROCK!

As novas estrelas das passarelas

As novas silhuetas que desfilam pelas passarelas e pelas ruas mostram um grande exercício de criatividade e tecnologia na modelagem

Você tem reparado nas últimas modas que andam por aí? Então, além das constantes releituras de outras décadas, de outras épocas, podemos perceber um grande avanço da modelagem, no que diz respeito à inovação da forma, concorda? Se antes, tínhamos constantemente a silhueta próxima ao corpo, ou em alguns casos, algumas referências baseadas em peças mais soltas com franzidos, hoje, as formas parecem estar se afastando cada vez mais do corpo. São grandes golas, saias e vestidos tulipa, formas trapézio e por aí vai. Bem, se pararmos para pensar há diversas questões que podemos analisar a partir desse olhar para os desfiles de moda, o que os estilistas têm proposto e como isso tem chegado às ruas.

Em primeiro lugar, recorremos ao velho e bom dicionário para trazer a definição de modelagem. Segundo o Dicionário Michaelis da Língua Portuguesa: Modelagem (modelar + agem) sf 1 Operação de modelar, modelação 2 Operação pela qual o escultor executa, em gesso, argila ou qualquer substância maleável, o modelo que depois será reproduzido em madeira, mármore, ou fundido.
A partir daí, não é preciso ser um expert para compreender que alguém que trabalha com modelagem, o modelista, deve conhecer as formas do corpo, uma boa base de ergonomia para saber como desenvolver peças que sejam confortáveis, conhecer muito bem a matéria prima do produto de moda e também saber se comunicar e perceber as vontades do designer/estilista para que as criações do estilista se tornem viáveis e possíveis no corpo de alguém. Até aí, tudo parece estar bem, mas durante muitos anos se viu e não é possível negar que ainda se vê que todas as glórias de uma boa coleção vão para o estilista. Nas escolas de moda, grande parte dos alunos querem ser estilistas, esquecendo que por trás desse “artista” (sim, porque muitos ainda tem, infelizmente, a visão de que moda é glamour), há uma grande equipe que ajuda a fazer acontecer. E sem estes, incluindo aí o modelista, não seria possível transformar desenhos e idéias em peças concretas.
Mas o bom de todo esse processo, que está em constante evolução, é que esses dois profissionais estão trabalhando cada vez mais próximos, sempre em busca da melhor solução para o produto e em busca de inovação. É bacana olhar para as passarelas pois, como foi comentado acima, tudo o que vemos são releituras de outras épocas, e perceber que essas releituras também conseguem ser, de certa forma, inovadoras. Não dizem que tudo já foi criado e o que nos resta é transformar? Pois que as transformações sejam feitas, mas que sejam muito criativas e que possam colocar inveja aos criadores que serviram de inspiração.
Além disso, os estilistas e também os modelistas estão de olho no consumidor de hoje. Mesmo que inspirados em referências, sejam elas da década de 50, 70, 30 ou 40, há uma prioridade para o conforto e também para a facilidade de uso, abusando também das tecnologias desenvolvidas para os tecidos. Se o consumidor dos dias de hoje trabalha muito, tem pouco tempo para o lazer e muito menos ainda para cuidar da casa ou dos afazeres domésticos, incluindo passar roupa, é preciso pensar em peças que agreguem características que facilitem essas tarefas. E ainda há um outro lado: os pontos do corpo que ganham destaque são outros deslocando os interesses e a sensualidade. Até a sensualidade se rebusca mais, evolui e busca um equilíbrio. Para que peças curtas e justas? Por que não peças curtas mas não justas? Uma transparência pode estar em lugares diferentes, um decote pode deixar os seios mais em evidência mas combinar com uma saia longa, super fluida, cheia de movimento. Asas à imaginação, dos homens, das mulheres e dos estilistas!
Por tudo isso, as tendências apontam para um caminho mais minimalista, às vezes futurista, sem tantos frufrus como vivenciamos nos últimos cinco anos. Isso dá mais ênfase para as soluções tecnológicas, no que diz respeito aos processos e aos materiais, mas também às soluções visuais como os volumes, as texturas, as silhuetas e os comprimentos. Se, por um lado, temos uma moda mais “austera”, por outro vemos uma grande evolução desse exercício de criatividade aliado à busca da indústria da moda por resultados expressivos e que seduzam o consumidor.

Reportagem publicada na Revista Catarina número 18

Poiret – O primeiro estilista

Ele foi revolucionário na sua época levando seu estilo de vida e suas criações para toda uma sociedade. Apesar de ter morrido falido e esquecido, Poiret será para sempre lembrado como o primeiro grande estilista.

A moda vai e vem e, por se tratar de um reflexo da época que vivemos, da sociedade onde nos inserimos e, por conseqüência refletir as questões culturais, sociais e econômicas é que percebemos mudanças freqüentes e que vão inclusive revisitar momentos que já foram assimilados e que podem nos fornecer algum tipo de referência para vivenciar a época atual. Assim é agora e assim foi no passado. Aqueles que têm sensibilidade para perceber essas referências de forma antecipada são grandes artistas. De qualquer forma, essas visitas a outros momentos é sempre cercada por atualizações. Não se vivencia como no passado.
Nas últimas temporadas temos percebido uma mudança considerável no que diz respeito às formas das roupas apresentadas nas passarelas. Se antes, as formas ajustadas ficaram por muito tempo, agora são formas que vão “contra”  a silhueta do corpo humano que ganham espaço. E, pelo que parece, elas estão sendo bem assimiladas. Se pararmos para pensar são formas inspiradas na antiga Grécia (os vestidos drapeados) e também algumas formas que nos remetem ao início do século, por volta dos anos 10, quando Poiret criou uma nova silhueta ao “libertar” as mulheres dos espartilhos. Essas, pelo que parece, proporcionam maior conforto e dão mais liberdade de movimento além de criarem uma nova imagem de moda. E será que foi nisso também que Poiret pensou ao propor uma imagem revolucionária de moda para aquela época?
Se foi intencional ou não, é difícil dizer pois há pesquisadores que apontam para os dois lados. Mas o fato é que Poiret conseguiu inovar, e muito, na moda daquela época. Segundo ele mesmo dizia: “A moda precisa de um tirano”, conduzindo logicamente ao pensamento de que ele era a pessoa mais indicada para se enquadrar no papel de déspota libertador.
Paul Poiret nasceu no dia 8 de abril de 1879 em Paris e foi, entre os períodos de Belle Époque  e os loucos anos 20, um dos mais importantes e visionários estilistas franceses.Seus pais eram comerciantes de tecidos no bairro de Hallen que, naquela época, graças aos famosos mercados, era considerado o coração de Paris e permanece, até hoje, como o centro da economia têxtil francesa. No entanto, sua vida profissional começou quando seu pai o enviou para trabalhar numa fábrica de sombrinhas para conhecer a vida real pois considerava o filho extremamente sonhador.
Seus momentos criativos na área de moda tiveram seu início ainda ali, quando, com os restos de seda das sombrinhas que ganhava de seu mestre, confeccionava vestidos extravagantes num manequim de madeira de 40cm que havia ganhado de suas irmãs (grandes admiradoras de seus projetos, assim como sua mãe de quem sempre recebeu muito apoio). Em 1889, foi trabalhar com Jacques Doucet e tornou-se chefe da alfaiataria da maison e, depois de passar pelo serviço militar trabalhou ainda na maison Worth em 1901.
Em 1903, com a ajuda da mãe que não hesita em contribuir com 50 mil francos para que o filho possa abrir seu próprio ateliê, Poiret inaugura sua casa tendo como primeira cliente uma famosa atriz de cinema da época, Réjane, que abandona Doucet, o antigo patrão de Poiret. Suas peças logo se tornam um sucesso e ele passa a estrela, sendo reconhecido nas ruas e em restaturantes, alem de rodear-se de ilustres pintores e artistas da época como Paul Iribe, Erté, Mariano Fortuny, Raoul Dufy entre outros.
Sua fama é a de ter libertado as mulheres dos espartilhos. Poiret considerava simplesmente ridículas as mulheres de busto curvo e traseiro saliente e, para acabar com isso, inspirado no modernismo que reinava na Europa e no Diretório do século XVIII, ele criou, em 1906, um vestido de linhas simples e estreitas com saia cortada abaixo do peito, batizada por ele de Le Vague, pois se movia como uma onda suave em torno do corpo. Com esse traje, ele anima as mulheres a desvencilhar-se do espartilho e, em menos de dois anos, estavam adotados os preceitos reguladores de uma silhueta graciosa e maleável. Além disso, lança as cintas-ligas, as meias cor-de-pele e cria os primeiros sutiãs modernos. Sua principal modelo era a sua própria mulher, Denise, que sempre vestia as suas criações e passou a servir de referência para as mulheres da sociedade parisiense.
Em 1909, com a primeira temporada dos Ballets Russes, a elite descobre os encantos do orientalismo que passa a influenciar a moda parisiense inicialmente por Paul Poiret que cria pantalonas bufantes, quimonos, turbantes e estampas em cores vivas transformando suas clientes em almeias de harém. Poiret se considera um sultão vestindo as mulheres do seu harém com trajes faustosos de motivos orientais e organiza festas lendárias. Uma delas, inspirada nos excessos do Oriente chama-se “Noite 1002”.
Mas Poiret não pára por aí. Dez anos antes de Chanel, Paul Poiret lançou seu primeiro perfume, chamado de Rosine (o nome de sua filha mais velha), com fragrância, frasco, embalagem, publicidade e distribuição totalmente concebido por um costureiro. Também passou a criar tecidos apoiado nas oficinas de fabricação. Junto com Raoul Dufy, criava tecidos e estampas que seriam usados em roupas e decorações e, por conta disso, em 1911, inaugurou em Paris uma oficina voltada para o ensino das artes decorativas. Batizadas com o nome de Martine (dessa vez, o nome de sua segunda filha), moças de condição modesta aprendem a criar e executar tapetes, luminárias, estofados e vários outros acessórios destinados à decoração da casa.
Tudo isso faz com que Poiret possa ser considerado o primeiro designer do século, estampando com a sua marca todos os seus projetos e conseguindo vender tudo, desde acessórios, perfumes, roupas a peças de decoração de interiores. Sua maison, que comercializava todos os seus produtos, tinha uma decoração extravagante, considerada vanguardista, assim como a maioria de suas criações, de suas festas e de sua vida da qual pôde conduzir até ser convocado para a Primeira Guerra Mundial, anunciando o fim de sua fantástica carreira.
Na volta da guerra, as mulheres já não se reconheciam tanto nos trajes de Poiret que, aos poucos, vai se sentindo abandonado. Acreditando poder recuperar sua clientela com algumas de suas festas, ele organiza algumas delas com extravagantes convites e importantes presenças. Porém, as dívidas acabam só aumentando. Vende sua grande coleção de quadros adquiridos diretamente de Matisse, Picasso e Van Dongen, escreve algumas obras e, depois de fechada sua maison, passa a pintar quadros que ganham uma retrospectiva organizada pelo amigo Jean Cocteau em 1944. No entanto, Poiret se vê impedido de assistir a seu último sucesso, morrendo alguns dias antes da abertura da exposição, à beira da miséria e abandonado pela mulher Denise.

Reportagem publicada na Revista Catarina número 18.

Tem moda aí? Tem sim, sinhô.

Santa Catarina é um dos estados com maior número de cursos de moda e quer se destacar não só no setor produtivo da cadeia têxtil mas também criativo. O que falta para chegar lá?

“O que você quer ser quando crescer?” Essa é uma pergunta que todos já ouvimos quando criança. E para muitos a resposta já era certa: médico, bombeiro, jogador de futebol, professor. Para outros tantos, a resposta foi aparecendo ao longo da vida escolar e para outros ainda, a resposta veio na hora de marcar a opção na inscrição do vestibular. O fato é que o rol de cursos e de faculdades cresceu muito nos últimos anos abrindo as possibilidades para qualquer um escolher “ o que quer ser quando crescer”, muito bom por um lado porque se tem mais opções e maior é a possibilidade de encontrar o curso que se quer perto da sua cidade, mas por outro pode-se acabar escolhendo o curso errado só porque não descobriu ainda sua vocação, influenciado pelas circunstâncias.
Em Santa Catarina, assim como em qualquer outro lugar, isso não é diferente e a proposta aqui é de uma reflexão no que diz respeito aos cursos de moda e design. A história dos cursos de moda em Santa Catarina é bastante recente. Foi em 1996 que iniciaram as atividades do primeiro curso de Moda na Udesc – Universidade do Estado de Santa Catarina. Isso numa época em que a moda começava a despertar interesse da mídia, de uma forma geral, com os eventos e logo depois com super modelos e também quando as empresas do setor têxtil e de confecção começavam a perceber a importância de um profissional com capacitação nessa área para que a empresa se mantivesse no mercado suprindo as necessidades do consumidor, caminhando na velocidade do mercado e propondo produtos diferenciados e inovadores.
Tudo isso despertou a atenção de diversas universidades e faculdades, de olho no mercado, que cursos de moda e design eram necessários em outros pontos do estado, já que diversos pólos têxteis e de confecção estão espalhados por Santa Catarina. Assim foram aparecendo cursos em Blumenau, Jaraguá do Sul, Criciúma, Lages, Brusque, Tubarão, Indaial, Rio do Sul, Balneário Camboriú, Guaramirim etc. São ao todo, de acordo com as informações do site do MEC, 16 cursos superiores de Moda/ Design de Moda no estado de Santa Catarina. Isso sem falar nos outros cursos rápidos de formação básica que se espalharam por todo o estado.
Para o discurso da moda isso é muito bom pois auxiliou e ainda auxilia a compreender que moda não é só glamour, mas trabalho árduo e exige muitos conhecimentos além do desenho (muitos acham que o que o designer/estilista precisa saber é apenas desenhar bem). Mas por outro lado, massificou a atividade, colocando centenas de profissionais formados a cada ano num mercado que ainda não está consolidado, pois apesar de nossas empresas serem centenárias e sermos conhecidos tradicionalmente como um estado têxtil, o despertar para a necessidade desse profissional (e quais as suas habilidades, qualificações e funções) ainda é muito recente, quando não necessário dizer que ainda não totalmente compreendida.
Mas então por que, se já temos tantos cursos de moda e design implantados no estado, não conseguimos nos destacar no quesito criatividade? Isso esteve na pauta das discussões recentemente no Fórum “O Futuro da Moda em Santa Catarina” que apresentou o resultado de uma pesquisa encomendada pelo governo do Estado. Claro que não estou procurando um Dior catarinense, mas estando dentro da universidade diariamente, observando o perfil das empresas e de académicos e em comparação a outros locais, percebe-se que o que falta não é estrutura física nos cursos, mas o que se tem ao redor. Qual é um dos principais itens que avaliamos quando vimos a criação de um traje, por exemplo? A criatividade, a inovação, correto?
E para que um designer/estilista consiga criar freqüentemente produtos criativos e que estejam ao alcance do consumidor, ele precisa esperar que a inspiração baixe como uma luz que vem do céu? Claro que não. A observação do mundo ao seu redor, a vivência desse mundo, o alerta para o que acontece no mundo (e o mundo não precisa ser levado ao pé da letra, pode ser a sua cidade, o seu bairro) é necessário. Não adianta ficar preso dentro da empresa e também não adianta achar que fazer pesquisa é entrar no Google e digitar “tendências verão 2009”. A formação cultural é importante: ir a um museu, ir ao cinema, perceber elementos marcantes na arquitetura, nas manifestações culturais, no artesanato da sua cidade, da sua região. Isso é tantas vezes esquecido e, se por um lado, pouco exercitado pelos alunos das escolas de moda, por outro lado, quando lembrado pouco encontrado. Muitas das cidades catarinenses, inclusive muitas das que têm instalados cursos de moda/design, não têm se quer um museu e pouco têm lembrados fatos importantes da sua história ou dão espaço a manifestações culturais, seja do teor que forem. Para formar um bom designer/ estilista não basta dar toda a formação técnica (modelagem, desenho, costura, etc), é preciso exercitar a formação criativa, reflexiva, critica. E é preciso saber dosar, pois se por um lado, em algumas cidades, encontram-se exímios costureiros e modelistas (muitas vezes por estarem há anos dentro de empresas e só agora puderam buscar formação profissional), por outro lado, em alguns locais, encontra-se gente criativa mas que não consegue transformar a idéia em produto pois lhe falta o conhecimento técnico.
Tudo isso rende muito pano para manga e envolve questões diversas: politicas, econômicas, sociais, culturais que cada um, seja o empresário, o aluno, o professor, o politico deve procurar analisar no seu contexto e propor mudanças, alternativas para conseguir desenvolver melhor as questões ainda deficientes e para ajudar a transformar Santa Catarina num pólo não apenas produtor mas também criador de moda.

Publicado na Revista Catarina.

O conceito da arte e da moda ou da arte-moda?

Arte ou moda? Arte e moda? Moda é arte? Essas são duas palavras que, sempre que aparecem juntas, provocam discussões acaloradas, pois alguns ilustres artistas não admitem que algo tão efêmero, pensado para durar pouco e totalmente relacionado à sociedade capitalista, possa ser arte. Já outros até se arriscam a traduzir em “roupas” alguns dos elementos presentes em suas pinturas ou esculturas.
Isso tudo faz lembrar um artigo de Adélia Borges chamado Designer não é personal trainer, onde ela tenta explicar o conceito do design e relacioná-lo ou diferenciá-lo da arte, apresentando pontos de vista de designers que se consideram designers e ponto e de designers que se consideram artistas, sim, e daí?
A questão hoje é essa. Esse ensaio proucra trazer mais algumas referências para refletir se moda é ou não arte. E para isso é preciso primeiro pensar um pouco a respeito da concepção que temos de arte. Apresento então três manifestações: “A Fonte” de Marcel Duchamp, 1917. “Marilyn Monroe” de Andy Warhol, 1962 e os parangolés de Helio Oiticica. Para você, essas manifestações são consideradas obras de arte ou não?
Bem, se pensarmos na tradicional concepção de arte, é possível que se chegue à conclusão que são apenas delírios de alguns loucos que se diziam artistas. E aí, vem à mente mais uma cena. Julia Roberts no papel de Katharine Watson, no filme O Sorriso de Monalisa, tentando ensinar história da arte para as alunas de uma escola aristocrática da década de 50.
Watson tentava mostrar às alunas da sua classe que a concepção tradicional de arte estava ligada a uma receita que era tida como valor inquestionável e como degrau da evolução humana, já que possuía mais refinamento que qualquer outra forma de manifestação. Porém, esta não era mais a base de reflexão e definição do que era arte. Esse movimento que começou a se desenvolver desde final do século XVIII, mas ganhou força no início do século XX, pensava em novas referências para a arte. E foi aí que surgiu Marcel Duchamp, dando o pontapé para a discussão dessa nova visão de arte e, mais tarde, desencadeou o movimento conhecimento como arte conceitual.
Em 1917, Marcel Duchamp surpreendeu o mundo da arte ao levar para uma galeria a obra intitulada “A Fonte”, que consistia num mictório com uma única intervenção do artista: a assinatura R.Mutt. A obra, seguida de várias outras, iniciou uma discussão então do que era entendido como arte e o que poderia ser considerado arte, já que novas formas de expressão surgiam e um novo contexto social, econômico e cultural, se instalava no início do século XX, como a fotografia e o cinema.
Walter Benjamin escreveu sobre isso e sobre a questão da reprodutibilidade nessas novas formas de arte. Segundo Benjamin, em seu texto A obra de arte da era da reprodutibilidade técnica, “o aqui e agora do original constitui o conteúdo da sua autenticidade, e nela se enraíza uma tradição que identifica esse objeto, até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual e idêntico a si mesmo. A esfera da autenticidade, como um todo, escapa à reprodutibilidade técnica, e naturalmente não apenas à técnica”. A partir da era da reprodução técnica, a relação com a obra passa a ser outra. Ao contrário do passado, quando muito do seu valor estava em ser única e quase inacessível, com a reprodutibilidade técnica a obra de arte fica mais próxima das massas e, nem por isso deixa de ter valor e ser desejada. Fazer as coisas ‘ficarem mais próximas’ é uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o caráter único de todos os fatos através de sua reprodutibilidade. Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua cópia, na sua reprodução, explica Benjamin.
Além da idéia da reprodutibilidade, um outro movimento, o da arte conceitual que ganhou força na década de 60, também propôs novos elementos para o entendimento da arte. A Arte Conceitual, de modo geral, opera na contramão dos princípios que norteiam o que seja uma obra de arte e por isso representa um momento tão significativo na história da arte contemporânea. Em vez da permanência, a transitoriedade, a reprodutibilidade en vez da unicidade; contra a autonomia, a contextualização, a autoria se esfacela frente às poéticas da apropriação e a função intelectual é determinada na recepção.
Os representantes da Arte Conceitual entendiam que a idéia da obra era mais importante do que a realização do trabalho em si, cuja porção visível era aparente ou secundária. Para eles, o processo criativo do artista, e não o seu resultado é o que mais importava.
A partir disso e das obras apresentadas acima, acredita-se ser possível traçar um paralelo entre a arte e a moda. A moda é pautada na efemeridade, na mudança constante e trabalha o tempo todo a partir de elementos estéticos, assim como a arte: o jogo de cores, as texturas, as linhas e os volumes são parte da composição de um produto de moda. Isso sem falar no movimento, elemento das chamadas artes menores a que a moda se submete mas que dá a ela um formato único. Gilda de Mello e Souza complementa “é o movimento, a conquista do espaço, que distingue a moda das outras artes e a torna uma forma estética específica”. A moda é uma forma de arte que sofre a influência do espectador ou do usuário. Na arte contemporânea é uma das grandes propostas. Quantas vezes encontram-se obras, instalações em bienais ou museus de arte onde a proposta é interagir de modo físico com o espectador? A moda sempre fez isso.
Assim, pensar em moda e pensar em arte não deve ser algo tão distante. Os elementos que sustentam a arte conteporânea e os elementos que caracterizam a moda são muito similares, principalmente se obervarmos o contexto atual e as suas propostas. Voltando portanto à construções envolvendo as duas palavras: moda e arte, qual delas se fixa melhor para você?

Corpo e roupa como signos de moda: o cuidado de si a partir do olhar do outro

Pensar na moda nos dias de hoje, sem dúvida nos remete, num primeiro momento, às mudanças periódicas do vestuário. Mas não é mais possível deixarmos de fora, um outro forte elemento que ajuda a dar vida para a expressão da moda: o corpo. Na sociedade de hoje, que vive intensamente uma cultura baseada na aparência e nos valores efêmeros, é difícil excluirmos a roupa e o corpo do discurso. Tanto o corpo quanto as roupas, nas suas mais variadas formas de expressão, configuram uma relação histórica com a “produção” da moda, refletindo as mudanças desta sociedade nos seus valores estéticos, políticos e sociais e ainda expressando uma visão pessoal de cada indivíduo. Essa percepção de mudança, tão acelerada nos dias de hoje e que faz parte do que entendemos como moda, associada a construção da aparência através do corpo e da moda, cria, não só na sociedade mas em cada indivíduo que a compõe, uma intensa forma de se relacionar e se comunicar.
Neste sentido, podemos afirmar que não existe corpo nem moda fora da história e fora dos signos sociais – cultura. Estamos imbuídos em uma cultura que nos constrói ao mesmo tempo em que somos (re) construídos por ela. Nesse momento de uma moda contemporânea, o corpo torna-se mais uma forma de construção de uma relação com o grupo buscando sempre atingir aquele padrão, mas de forma subjetiva, tornando-se único e refletindo os gostos, estilos e valores daquele indivíduo.
Em torno destes signos culturais estão os padrões de corpo ideal e as tendências de moda. É a partir deles que os indivíduos pautam sua postura, frente o cuidado de si, sua relação com o próprio corpo e com os modos de adorná-lo. É também em nome desse cuidado de si que o indivíduo busca a sua inserção na vida social. O aceitar o outro evoca nossa própria aceitação para conosco.
O cuidado de si é aqui compreendido como um conjunto ordenado de exercícios disponíveis, recomendados e utilizados pelos indivíduos dentro de um sistema simbólico que tem como fim atingir um objetivo específico. Por assumir uma condição simbólica, o cuidado de si possui uma dimensão política e moral.
Sob este viés, as posturas, frente a esse cuidado consigo mesmo, implicam em processos de subjetivação/objetivação. A subjetivação se dá quando corpo e mente a ela se submetem: “quero ficar belo”. E a objetivação se concretiza no ato de assumir isso como prática: “vou fazer uma cirurgia plástica” ou “vou vestir ou usar determinado acessório corporal”, “vou me apropriar de uma moda”.
Esses procedimentos perpassam assim por cuidados médicos, higiênicos e estéticos na construção das identidades bem como é também ela o fator que demarca as diferenças. Trata-se da formação de um sujeito que se auto-controla, autovigia e autogoverna.
Neste início de século XXI, o padrão estético de corpo caracteriza-se pelo biotipo longilíneo e magro, onde “um quilinho a mais” faz muita diferença e onde, para se delinear um grupo muscular, não são poupados esforços.
Na nossa cultura da aparência, os cuidados com o corpo viraram essenciais. Hoje, sou o que aparento e estou, portanto, exposto ao olhar do outro, sem lugar para me esconder, me refugiar. Estou totalmente a mercê do outro, já que o que existe está à mostra, sou vulnerável ao olhar do outro, mas ao mesmo tempo preciso de seu olhar, de ser percebido, senão não existo.
O olhar do outro serve assim como uma espécie de panóptico sobre o nosso próprio corpo, sobre sua estética, sobre os modos de se estar na moda. Só me reconheço enquanto “belo” se meu corpo se reflete no espelho social do signo de beleza e da moda.
Uma vez construídos os signos de representação corporal – num determinado grupo ou cultura – eles fixam uma categorização social sob a qual se dá o jogo da in(ex)clusão. Estas relações estão em toda parte: nos signos de cor de pele, de corpulência, de higiene, nos modos de vestir e usar adereços, etc. O corpo pode ser assim também compreendido como um signo de demarcação e distribuição de poder simbólico.
Outro fator a ser analisado dentro desta temática é que a tecnologia e o sistema de produção, muitas vezes, configuram o humano – enquanto corpo e moda – numa cega identificação com a superficialidade.
Os hippies da década de 60, como forma de protesto à classe média/alta americana, fizeram uso de uma aparência física e vestimentas específicas para manifestar sua ideologia. As revoltas sociais estavam estampadas e se projetavam através de seus corpos: barba por fazer, cabelos compridos, roupas largas, incenso, pulseiras, brincos e tatuagens. Ao mudar seu corpo, o indivíduo procura construir, e a confirmação de sua identidade é a objetivação de uma subjetivação.
Os punks dos anos 90 foram outro grupo que se rebelou contra o modelo de beleza, que exigia corpos musculosos e bronzeados. Eles se apresentavam de pele branca e tingiam os cabelos de preto ou com cores fortes e luminosas para contrastar com o pálido da pele. Cultivavam uma magreza de aspecto doentio e vestiam somente negro.
No entanto, hoje podemos entrar no shopping e comprar um “hippie” ou um “punk” sem nem compactuarmos de tal ideologia, ou mesmo, sem termos sequer o conhecimento da mesma. Se os hippies da década de 1960 encarnavam um sujeito, o hippie do shopping encarna um artifício submetido pela moda e pelo acessório.
Não se trata aqui de negarmos que não existam mais “tribos” que tenham seu héxis corporal e roupa ligados a sua ideologia e regimes de verdade. Há inúmeras comunidades urbanas que assimilam a adesão num determinado grupo através da apropriação de determinados signos em seu corpo e vestuário. O piercing, a tatuagem ou outro adereço ou marca podem, de maneira significativa, inscrever no sujeito sua identidade… Seu sincretismo. Eles podem significar um rito de passagem, um sinal de transcendência. No entanto, não se pode negar a apropriação que o capitalismo faz das várias imagens ideológicas, colocando-as no mercado, destituindo-as de sua essência ideológica, ou seja, superficializando a ideologia.
Assim, percebemos que corpo e roupa sempre serão atravessados pelo olhar do outro e o olhar do outro será o nosso ponto de referência na construção de uma relação com o mundo e conosco mesmo, ou seja, com o cuidado de si.

Publicado na Revista Catarina.

Escrito em parceria com Fabio Zoboli

Mondrian: linha, plano e cores fundamentais em busca da essência

Novamente inspirando as criações de moda, Mondrian coloca em pauta a sua essência através de cores básicas e planos geométricos

É cada vez mais difícil dissociar a moda das artes, em suas mais variadas formas de manifestação, pois a todo momento encontramos vestígios, leituras de obras de artes em coleções de grandes ou pequenos criadores. Exemplo disso foram os últimos desfiles de verão onde os artistas cubistas, neoplasticistas e modernistas estiveram estampados em vestidos, saias, blusas e despertaram mais uma onda de aproximação das artes com a moda.
E esse movimento não é de agora, não. Vários foram os estilistas que foram buscar inspiração nas artes para criar suas coleções e alguns artistas também se utilizaram do vestuário como forma de expressão. Sonia Delaunay criou estampas para uma indústria têxtil nos anos 20, Ronaldo Fraga trouxe referências de Arthur Bispo do Rosário e Miró e Gaudí se tornaram inspiração para a Lenny na última coleção de verão. Yves Saint Laurent passeou durante toda a sua carreira pelo mundo das artes trazendo referências de diversos artistas para as suas coleções: Picasso, Matisse e Andy Warhol foram alguns dos artistas que tiveram suas obras retratadas nas criações de Saint Laurent.
A mais famosa delas, no entanto, foi o vestido tubinho inspirado em Piet Mondrian que fez parte da coleção de 1965. O vestido fazia uma leitura da obra Composição, criada por Piet Mondrian, e se tornou um ícone da Alta Costura dos anos 60 estreitando os laços entre a moda e a arte moderna.
O vestido é, vez ou outra, reproduzido pela grife e levado pelo movimento que começa a se disseminar hoje colocando Mondrian de novo em alta. As linhas simplificadas, limpas e baseadas em geometrismos, focadas na funcionalidade e na harmonia dos planos, ao mesmo tempo, estão de volta à moda, seja nas roupas, na decoração ou no design de uma forma geral. E Mondrian se tornou referência de criação ao utilizar as cores primárias (azul, amarelo e vermelho) neutralizadas pelo branco e vermelho na construção de desenhos geométricos.
Piet Mondrian, como ficou conhecido Pieter Cornelis Mondriaan, é um pintor holandês modernista que participou do movimento artístico Neoplasticismo e colaborou com a revista De Stijl. Nasceu em 1872 e morreu em 1944 em Nova York.
Depois de passar por um período impressionista e simbolista, Mondrian começou a desenvolver sua grande obra neoplástica, a partir de 1917. Partindo do Cubismo, Mondrian começou gradualmente a construir uma postura crítica contrária à Delaunay, Duchamp, aos futuristas e Chagall. Segundo ele, o Cubismo é racional porém não o suficiente, não levando a racionalidade às últimas conseqüências. Ele entendia a consciência em seus conteúdos cognitivos, mas não a consciência em si, em sua essência. Segundo Mondrian, a obra de arte deveria ter como estrutura própria uma essência teórica rigorosa. Ele pensava que não era possível conhecer nada sem a percepção e sim com uma reflexão sobre a percepção separada da própria percepção: uma refelexão em que a mente opera sozinha, com os meios exclusivos que são fornecidos por sua constituição. Assim, deveria-se partir de noções comuns, isto é, as noções elementares da linha, do plano e das cores fundamentais.
É a partir daí que nasce toda a série de quadros do artista. Entre 1920 e 1940, os quadros assemelham-se uns aos outros parecendo uma grade de coordenadas que formam quadros de diversos tamanhos, cobertos de cores elementares com o predomínio freqüente do branco e do preto.
Mondrian procurava retratar em suas obras o rigor e a dignidade da ciência transformando a superfície em plano. Subdividindo a superfície por meio de coordenadas verticais e horizontais, ele resolvia numa proporção métrica tudo o que na natureza apresenta-se como altura e largura restando o que se apresenta na terceira dimensão e que ele traduz nas infinitas sensações variáveis segundo a cor local, a distância e a luz.
Com essas obras Mondrian queria demonstrar que a percepção de uma cor não muda, o que muda é a valorização da cor percebida conforme a amplitude da área coberta e sua forma; duas zonas de extensões diferentes (um quadro grande e um pequeno) apresentam-se em igualdade de valor quando a diferença na extensão é compensada pelas diferentes profundidades do tom (analogamente, dois tons diferentes apresentam-se em igualdade de valor quando suas diferenças são compensadas pela maior ou menor extensão dos quadros). A proporção perfeita surge quando todos os valores do sistema equilibram-se, formando não mais uma superfície homogênea mas um plano geométrico.
Por essas e outras questões, Mondrian aproxima-se do programa da Bauhaus e, para ele, o artista deve ser consciente da sua responsabilidade social fazendo da pintura um projeto de vida social. Mondrian imaginava uma sociedade capaz de resolver suas contradições no dia-a-dia com o raciocínio e sem o recurso à violência. Por isso, em sua mente, sua pintura se enquadrava num perfeito urbanismo: a cidade com que sonha é o espaço vital de uma sociedade cujos atos, sendo puros produtos da consciência em sua unidade, devem ser, ao mesmo tempo, racionais, morais e estéticos.
A partir disso não é de se admirar que essa concepção tenha influenciado tanto a arquitetura e também as artes gráficas e, num momento como vivemos a sociedade de hoje, não é por acaso que ele venha a ser lembrado. Mondrian foi uma das consciências mais elevadas, mais lúcidas e mais civilizadas da história da arte moderna.

Publicado na Revista Catarina – edição 14.