A criação de moda e os bastidores

Para quem só compra moda, ou seja, os consumidores, não faz nem idéia da complexidade que envolve a criação e o desenvolvimento de novos produtos de moda. A cada estação é fácil perceber que há novos produtos extremamente criativos e diferenciados, mas talvez muitos nunca pararam para pensar de onde vem essa criatividade e como os estilistas/designer “adivinham”  o que vamos querer usar na próxima estação, já que muitos produtos são desenvolvidos com antecedência de até um ano.
Quem escolhe essa carreira tem que ter mais do habilidades técnicas para desenho ou modelagem ou “bom gosto”. Criar novos produtos, sejam eles de vestuário, acessórios, calçados ou até mesmo decoração e outros tantos tipos requer uma atenta observação da sociedade e de tudo o que acontece ao nosso redor. Essas pessoas precisam desenvolver uma sensibilidade para perceber os mínimos movimentos que estão transformando a cultura – música, cinema, comportamento, artes -, a economia e os valores das pessoas. Tudo isso influencia a moda e conseqüentemente vira objeto de estudo das pessoas que criam moda. Esses dias lia um texto que falava sobre tendências e ali estava escrito: “A pesquisa de tendências é uma atividade que tem de lidar com as capacidades de percepção e de leitura de sinais da sociedade, quase sempre incipientes, tendo como limites os interesses e as possibilidades dos parceiros da indústria” e ainda “O estudo do comportamento dos consumidores deveria ser o início e o fim do processo de identificação de novas tendências”.
Por aí percebe-se que a criatividade dos estilistas e designers não vêm de uma inspiração divina, mas como se diz por aí, de muita “transpiração”. Muita informação é necessária. Até aí, tudo bem, informação é o que não nos falta nos dias de hoje. O grande desafio é filtrar tudo isso e saber como usar, concorda? E é aí que mora o talento do designer. Conseguir filtrar toda essa informação e conseguir criar, a partir desses elementos, um produto de moda que todo mundo vai querer usar na próxima estação, sem esquecer da capacidade da indústria, dos novos tecidos, do custo…

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A pesquisa
Como comentado acima, informação não nos falta ao nosso redor, é só saber olhar. E isso é real, quando se está antenado, muitas referências podem se tornar inspiração. Mas, por outro lado, muitas vezes é necessário volume de informação e também um olhar diferente que, convenhamos, se estamos sempre no mesmo lugar a tendência é que num determinado momento não consigamos mais enxergar coisas diferentes. Por isso, viajar pode ser interessante. Não por sair apenas, mas por olhar com outros olhos ao voltar.
Para quem trabalha com moda, viagens de pesquisa são freqüentes, principalmente para grandes cidades do mundo. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, uma viagem dessa não serve apenas para fazer fotos das vitrines, como é costume de muitos profissionais desse ramo. Nessas cidades, muitas tendências começam, muitos novos comportamentos que vão influenciar mais tarde as nossas regiões iniciam e muitos novos valores e desejos são despertados.
Isso é que faz tão importante uma viagem a Paris, por exemplo, tão importante para um profissional de moda. Olhar a vitrines, sim. Entrar nas lojas para ver quais as novas coleções, sem dúvida. Mas o fundamental é tentar compreender um pouco mais da cultura daquela região e como tudo isso se reflete no modo como as pessoas vivem, se vestem e se relacionam. A partir daí será fácil buscar inspiração para criar, não para os franceses, mas para brasileiros, catarinenses ou brusquenses.

Os bastidores e as passarelas da moda
Em recente viagem a Paris com o objetivo de pesquisar moda foi possível colocar em prática as questões mencionadas acima. Muito além de olhar vitrines para pesquisas as tendências, pôde-se incluir aí visitas a museus e galerias que traziam exposições de moda, arte e fotografia (as grandes exposições costumam influenciar estilistas em temas para as próximas coleções) como a do artista contemporâneo Jeff Koons em Versailles (um choque cultural!! As obras do artista super contemporâneas expostas no ambiente rococó do Chateau de Versailles), a do fotógrafo Richard Avedon, a homenagem aos 45 anos de carreira do estilista italiano Valentino no Louvre e a exposição da dupla de estilistas Viktor&Rolf no Barbican Gallery em Londres.
Além disso, buscou-se informação nas feiras têxteis que estavam acontecendo por lá como a Première Vision, Expofil e Mod’Amont, mas o mais interessante de tudo foram as referências trazidas da cultura e comportamento, ou seja, a forma como as pessoas vivem e andam na rua. E então foi possível observar tudo isso em dois momentos: as pessoas “normais” no dia-a-dia e os fashionistas (pessoas que trabalham com moda ou que tem alguma relação com o mundo da moda) durante a cobertura das semanas de moda internacionais de Londres e Paris. Nas grandes cidades, as pessoas na rua investem mais em seu estilo próprio e não estão (ou estão) tão preocupadas com o que os outros vão dizer. Confiam no seu feeling e, talvez pela diversidade presente na própria cidade a partir de culturas, povos e valores tão distintos convivendo juntos, o que se vê como resultado final são composições muito interessantes. Já os fashionistas transformam os desfiles numa grande passarela: não só aquela em que são apresentadas as novas coleções dos grandes criadores, mas também o backstage e a platéia (com direito a celebridades que fazem de tudo para chamar atenção) onde aparecem as pessoas antenadas vestindo aquilo que ainda será visto na passarela e que estará nas ruas de verdade algum tempo depois.

E o que se pode concluir de tudo isso? Bem, assim tudo parece muito fácil, mas nem tudo transcorre de forma tranqüila. O importante é que se compreenda que não existe um outro mundo de onde venham as coisas prontas, sejam elas as inovações e as novas criações. Esse é o nosso mundo e é dele que se busca inspiração para criar e viver. Para transformar, basta olhar com outros olhos e valorizar tudo o que está ao seu redor!
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Esse texto foi publicado no Município Mais – ed. 19 que circulou no dia 13 de novembro de 2008.

O Pretinho Básico: De revolucionário ao clássico que não sai de moda

Que atire a primeira pedra quem não tem pelo menos um no armário! O vestido preto, conhecido como pretinho básico, é um daqueles clássicos que, seja qual for a idade, classe social ou profissão, toda mulher tem que ter um. Ele traduz elegância e a discrição necessária que a mulher contemporânea precisa. E faz isso muito bem, caso contrário não teria se tornado a peça indispensável que é há mais de 80 anos.

A invenção do pretinho básico é atribuída a uma das mulheres mais criativas e inovadoras do século XX: Coco Chanel. Em maio de1926, a revista Vogue publicou uma ilustração com um modelo de vestido preto, simples, criado pela costureira. Num momento em que as mulheres estavam atingindo a independência, o vestido veio a calhar. Parece que o vestido preto conseguiu representar tudo o que uma mulher precisava naquele momento: simbolizava modernidade com linhas praticamente aerodinâmicas e uma sensualidade tranqüila e confiante, elementos esses característicos das criações de Chanel. Conta-se que um dos grandes rivais de Chanel, o costureiro Paul Poiret perguntou a Chanel, um dia, quando vestida de preto: “Você está de luto por quem, mademoiselle?”. “Por você, monsieur”, foi a resposta calma dela.

O pretinho olhava para frente, para o futuro. Principalmente depois da quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, a imagem “chique simples” do pretinho parecia particularmente oportuna. As roupas vistosas, de aparência sofisticada, eram consideradas inadequadas mesmo para os que não haviam sido afetados pela Grande Depressão. Assim como as roupas da década de 30, de linhas retas e desprovidas de frescuras, o vestido preto caia muito bem e foi apelidado de Ford Chanel numa comparação com a marca e a cor do carro mais popular dos anos 20.

Antes dessa época (e, de certa forma, até os dias de hoje), o preto era normalmente associado ao luto. O período do luto durava dois anos e meio e o primeiro período, que durava em torno de um ano e um pouco mais, a mulher deveria vestir-se inteiramente de preto. No segundo estágio, que durava aproximadamente nove meses, a viúva passava para roupas pretas com enfeites pretos e, por fim, vestia-se com tons esmaecidos como cinza e alfazema com acessórios pretos. Em vista do grande número de perdas com as guerras, a rigidez dessa regras do luto foram sendo abandonadas aos poucos pois muitos achavam que o melhor era seguir em frente. Mesmo assim, o uso da cor ainda se manteve. Como a expectativa de vida era relativamente baixa e as guerras ocorriam freqüentemente, principalmente até a primeira metade do século XX, algumas lojas criaram departamentos de artigos de luto onde se podia encontrar tudo o que fosse necessário.

Entre muitos pretinhos marcantes, seja na vida real ou no cinema, estão Catherine Deneuve, com vestido de Yves Saint Laurent na cena final de A Bela da Tarde; Scarlett O’Hara (de luto) dançando com Rhett Butler em … E o Vento Levou; Jacqueline Kennedy no funeral de seu marido, o presidente John Kennedy; Audrey Hepburn em seu figurino criado por Hubert Givenchy para Bonequinha de Luxo; Princesa Diana em sua primeira aparição pública ao lado do Príncipe Charles; Elizabeth Hurley com seu polêmico Versace com alfinetes de segurança, Rita Hayworth em Gilda; a sexy Betty Boop; Demi Moore como a esposa de um milhão de dólares em Proposta Indecente e as artistas francesas Edith Piaf e Julette Greco.

Entre ondas de luto, revoltas e estilo, o pretinho básico encaixa-se muito bem com estilo, e que estilo. Nancy MacDonell Smith, a autora do livro Pretinho Básico termina seu texto definindo e homenageando o clássico: “Meu verdadeiro reconhecimento do valor do preto é muito mais filosófico que prático. Com o preto, sinto-me como se estivesse usando minhas roupas, em vez de ficar conjeturando se elas estariam me usando. De preto me sinto confortável, confiante, inatacável. Contra a tela sombria, é como se meu eu resplandecesse”.

Publicado no Município Mais – edição 07 de 24 de março de 2008.

Município Mais: um novo projeto

No ano passado, em 2007, o Jornal Município Dia-a-dia, da qual sou colaboradora da área de moda desde 2001, me convidou para fazer parte de um novo projeto: uma revista, um encarte quinzenal que falaria de outros assuntos que não estavam dentro do jornal diário. Uma revistab de variedades buscando sempre fazer o link com pessoas, eventos e locais de Brusque e região. Um desafio que foi e ainda é muito bom de fazer, apesar de bastante puxado. Afinal, além de tudo o que faço, ainda conseguir conversar com pessoas, estruturar editoriais de moda e fechar tudo com meu irmão (que é responsável pelo projeto gráfico e a diagramação da revista) mais a minha querida editora, não é fácil. Aqui vou postar alguns dos trabalhos que tiveram resultados bacanas. Quem quiser acompanhar, acesso http://www.municipiodiaadia.com.br.

beijos