Nossos “brasileirismos”

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Ontem começou mais uma edição, a 26a, do São Paulo Fashion Week para apresentar as novas coleções de inverno. A primeira edição de 2009 tem como tema e quer celebrar os brasileirismos, “representados pela leveza e pela felicidade que povoam o imaginário do brasileiro, e sua relação única com o mundo que o cerca.” E nesses brasileirismos, uma pessoa que simboliza e ajudou a construir essa imagem que o mundo tem do Brasil, é Carmen Miranda, também homenageada nessa edição do SPFW. A cantora ganhou uma exposição especial com peças do acervo do Museu Carmen Miranda no espaço da Bienal.

Carmen Miranda comemoraria 100 anos de existência no mês de fevereiro e, quando li a respeito do tema, lembrei que já publiquei um pequeno texto com a sua biografia no site Santa Moda. Ele segue abaixo. Quanto à São Paulo Fashion Week voltarei a comentar nos próximos dias!

Que é que a baiana tem?
Por Graziela Morelli

Carmen Miranda é até hoje a cantora brasileira que mais fez sucesso no exterior. Dona de um estilo absolutamente único e particular, tanto na maneira de cantar como na performance de palco, teve uma vida de mito, cheia de glórias e dramas. Nascida em Portugal, a 9 de fevereiro de 1909, veio para o Brasil ainda bebê, fixando-se com a família no Rio de Janeiro. Maria do Carmo Miranda da Cunha passou a ser chamada por Carmen pela família quando ainda era adolescente, por influência da ópera Carmen, de Bizet. Desde criança a menina tinha propensão para cantar. Mas queria ser freira, e só não realizou seu sonho por interferência do pai. Estudou num colégio de freiras mas não chegou a completar o curso ginasial porque, aos 14 anos, precisou interromper os estudos para trabalhar e ajudar no sustento da casa. Foi balconista numa loja de gravatas e aprendiz de chapelaria numa loja de chapéus femininos. Era muito criativa e excelente vendedora. Por volta de 1925, a família foi residir na travessa do Comércio nº 13, instalando uma pensão, administrada pela mãe. Em 1928, cantou pela primeira vez numa festa beneficente, no Instituto Nacional de Música, conquistando a simpatia e o respeito do compositor Josué de Barros, ao interpretar a música Chora Violão. Um ano depois, gravou dois discos batendo o recorde de vendas com a música Prá você gostar de mim (Taí).


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Sua estréia no cinema se deu em 1932 com o filme O Carnaval cantado no Rio, e no ano seguinte A voz do Carnaval, ambos de Adhemar Gonzaga. Atuou em outras produções, todas de Wallace Downey: Alô, alô, Brasil (1935); Estudantes (1935); Alô, alô, Carnaval (1936) e Banana da Terra (1939), seu último filme no Brasil, no qual interpretava O que é que a baiana tem? acompanhada pelo Bando da Lua. Foi nesse filme que criou o estilo que a consagrou no mundo inteiro: roupas de baiana, turbantes, balangandãs, sandálias plataforma, as conhecidas gesticulações dos braços e do corpo, o revirar de olhos, o sorriso contagiante, enfim, Carmen tinha muita bossa, simpatia e humor, o que aumentava seu prestígio. Em 1933 Aurora Miranda, sua irmã mais nova, passou a acompanhá-la como cantora em diversos shows.

Conquistou também Nova Iorque, com sua presença explosiva cantando apenas cinco músicas acompanhada pelo Bando da Lua. Seus turbantes e balangandãs foram copiados e expostos em vitrines de lojas, e a cantora ganhou o título de Brazilian Bombshell.

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Em 1940, Carmen retorna ao Rio, em férias, mas a pedido da primeira dama, Darcy Vargas, se apresenta no Cassino da Urca, sendo recebida friamente pela platéia e imprensa local. Como resposta a cantora interpreta o samba Disseram que eu voltei americanizada, ao lado de Grande Otello, arrancando aplausos da platéia. Em 1941, torna-se a primeira artista latino-americana a ser perpetuada na Calçada do Teatro Chinês, em Hollywood, imprimindo suas mãos e os saltos de seus sapatos sob a inscrição Viva! à maneira sul americana.

Carmen atuou ainda em diversos filmes e shows, até falecer em 5 de agosto de 1955, após participar do programa de TV de Jimmy Durante.

Carmen foi cantora exclusiva de diversas rádios: Victor (em São Paulo), Mayrink Veiga (onde foi “a primeira cantora de rádio a merecer contrato, quando todos recebiam somente cachês”2), Odeon e Tupi. Recebeu diversos slogans: “Cantora do it”, “Embaixatriz do samba”, “Ditadora risonha do samba” e, o mais significativo, “Pequena Notável”, (pois era pequena mesmo, tinha 1,53 m de altura) sendo os dois últimos criados por César Ladeira, famoso radialista.

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O estilo de Carmen era uma envolvente mistura de graça e ingênua malícia. Sua enorme capacidade de expressão fazia os ouvintes sentirem sua presença “fora do disco”, ao vivo. Nos teatros, aquela mulher de pouca estatura e delicada de corpo parecia eletrizar o público com voz, os gestos sugestivos e os olhos verdes que chispavam.

Essa matéria foi publicada no site Santa Moda: http://www.santamoda.com.br/passaso.asp?codigo=135

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A criação de moda e os bastidores

Para quem só compra moda, ou seja, os consumidores, não faz nem idéia da complexidade que envolve a criação e o desenvolvimento de novos produtos de moda. A cada estação é fácil perceber que há novos produtos extremamente criativos e diferenciados, mas talvez muitos nunca pararam para pensar de onde vem essa criatividade e como os estilistas/designer “adivinham”  o que vamos querer usar na próxima estação, já que muitos produtos são desenvolvidos com antecedência de até um ano.
Quem escolhe essa carreira tem que ter mais do habilidades técnicas para desenho ou modelagem ou “bom gosto”. Criar novos produtos, sejam eles de vestuário, acessórios, calçados ou até mesmo decoração e outros tantos tipos requer uma atenta observação da sociedade e de tudo o que acontece ao nosso redor. Essas pessoas precisam desenvolver uma sensibilidade para perceber os mínimos movimentos que estão transformando a cultura – música, cinema, comportamento, artes -, a economia e os valores das pessoas. Tudo isso influencia a moda e conseqüentemente vira objeto de estudo das pessoas que criam moda. Esses dias lia um texto que falava sobre tendências e ali estava escrito: “A pesquisa de tendências é uma atividade que tem de lidar com as capacidades de percepção e de leitura de sinais da sociedade, quase sempre incipientes, tendo como limites os interesses e as possibilidades dos parceiros da indústria” e ainda “O estudo do comportamento dos consumidores deveria ser o início e o fim do processo de identificação de novas tendências”.
Por aí percebe-se que a criatividade dos estilistas e designers não vêm de uma inspiração divina, mas como se diz por aí, de muita “transpiração”. Muita informação é necessária. Até aí, tudo bem, informação é o que não nos falta nos dias de hoje. O grande desafio é filtrar tudo isso e saber como usar, concorda? E é aí que mora o talento do designer. Conseguir filtrar toda essa informação e conseguir criar, a partir desses elementos, um produto de moda que todo mundo vai querer usar na próxima estação, sem esquecer da capacidade da indústria, dos novos tecidos, do custo…

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A pesquisa
Como comentado acima, informação não nos falta ao nosso redor, é só saber olhar. E isso é real, quando se está antenado, muitas referências podem se tornar inspiração. Mas, por outro lado, muitas vezes é necessário volume de informação e também um olhar diferente que, convenhamos, se estamos sempre no mesmo lugar a tendência é que num determinado momento não consigamos mais enxergar coisas diferentes. Por isso, viajar pode ser interessante. Não por sair apenas, mas por olhar com outros olhos ao voltar.
Para quem trabalha com moda, viagens de pesquisa são freqüentes, principalmente para grandes cidades do mundo. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, uma viagem dessa não serve apenas para fazer fotos das vitrines, como é costume de muitos profissionais desse ramo. Nessas cidades, muitas tendências começam, muitos novos comportamentos que vão influenciar mais tarde as nossas regiões iniciam e muitos novos valores e desejos são despertados.
Isso é que faz tão importante uma viagem a Paris, por exemplo, tão importante para um profissional de moda. Olhar a vitrines, sim. Entrar nas lojas para ver quais as novas coleções, sem dúvida. Mas o fundamental é tentar compreender um pouco mais da cultura daquela região e como tudo isso se reflete no modo como as pessoas vivem, se vestem e se relacionam. A partir daí será fácil buscar inspiração para criar, não para os franceses, mas para brasileiros, catarinenses ou brusquenses.

Os bastidores e as passarelas da moda
Em recente viagem a Paris com o objetivo de pesquisar moda foi possível colocar em prática as questões mencionadas acima. Muito além de olhar vitrines para pesquisas as tendências, pôde-se incluir aí visitas a museus e galerias que traziam exposições de moda, arte e fotografia (as grandes exposições costumam influenciar estilistas em temas para as próximas coleções) como a do artista contemporâneo Jeff Koons em Versailles (um choque cultural!! As obras do artista super contemporâneas expostas no ambiente rococó do Chateau de Versailles), a do fotógrafo Richard Avedon, a homenagem aos 45 anos de carreira do estilista italiano Valentino no Louvre e a exposição da dupla de estilistas Viktor&Rolf no Barbican Gallery em Londres.
Além disso, buscou-se informação nas feiras têxteis que estavam acontecendo por lá como a Première Vision, Expofil e Mod’Amont, mas o mais interessante de tudo foram as referências trazidas da cultura e comportamento, ou seja, a forma como as pessoas vivem e andam na rua. E então foi possível observar tudo isso em dois momentos: as pessoas “normais” no dia-a-dia e os fashionistas (pessoas que trabalham com moda ou que tem alguma relação com o mundo da moda) durante a cobertura das semanas de moda internacionais de Londres e Paris. Nas grandes cidades, as pessoas na rua investem mais em seu estilo próprio e não estão (ou estão) tão preocupadas com o que os outros vão dizer. Confiam no seu feeling e, talvez pela diversidade presente na própria cidade a partir de culturas, povos e valores tão distintos convivendo juntos, o que se vê como resultado final são composições muito interessantes. Já os fashionistas transformam os desfiles numa grande passarela: não só aquela em que são apresentadas as novas coleções dos grandes criadores, mas também o backstage e a platéia (com direito a celebridades que fazem de tudo para chamar atenção) onde aparecem as pessoas antenadas vestindo aquilo que ainda será visto na passarela e que estará nas ruas de verdade algum tempo depois.

E o que se pode concluir de tudo isso? Bem, assim tudo parece muito fácil, mas nem tudo transcorre de forma tranqüila. O importante é que se compreenda que não existe um outro mundo de onde venham as coisas prontas, sejam elas as inovações e as novas criações. Esse é o nosso mundo e é dele que se busca inspiração para criar e viver. Para transformar, basta olhar com outros olhos e valorizar tudo o que está ao seu redor!
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Esse texto foi publicado no Município Mais – ed. 19 que circulou no dia 13 de novembro de 2008.

ESCRAVOS DA VISÃO e a estética rock de volta

No finalzinho do ano, em meio àquela correria de sempre, pós-enchente em Santa Catarina, Patricia me chamou para mais um texto para a Catarina, quem sabe usando o tema da edição que era o Rock. Escrevi o texto junto com o Petrelli, Marco Aurélio Petrelli que é designer e também professor da Univali. A Catarina n. 20 está chegando às bancas essa semana. Dá uma olhada na capa. O texto segue logo abaixo!

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Você já imaginou um mundo sem música? Difícil, hein? A música é algo que está presente de forma bastante intensa na vida de cada um de nós, seja consciente ou inconscientemente, pois ouvimos sons e músicas em alguma parte do dia. Ela é uma manifestação que, assim como a moda, reflete os valores e os anseios de uma sociedade. Certo? Os dois movimentos, pelo menos no que diz respeito ao século XX, sempre estiveram muito ligados e não é difícil observar que os dois assuntos têm a ver com comportamento. O modo de se vestir de uma pessoa ou de um grupo mostra um pouco da sua personalidade e, sem dúvida, esse modo de vestir vai revelar o seu comportamento, seus valores e suas atitudes. O mesmo se pode dizer em relação à música. Seus gostos musicais, suas preferências dizem um pouco da pessoa. Juntos, moda e música vão ajudar a construir as impressões que temos, as imagens das pessoas como uma forma de linguagem.
Além disso, temos uma outra forma de expressão (já que vivemos numa sociedade baseada na aparência, não será difícil compreender tudo isso) que também mostra esses movimentos, tem como uma de suas funções comunicar mas que se mistura muito bem com esses outros dois elementos, que é o design gráfico.
Basta olhar para o lado e perceber que estamos falando de algo tão presente em nossas vidas, quanto o simples ato de escolher um CD… vestir uma camiseta… calçar um tênis… comprar um livro. Por vezes, não nos damos conta que, o que realmente estamos fazendo, são opções estéticas representativas de nosso estado de espírito.
Não obstante ao universo da música e da moda, a busca pela afirmação da personalidade, dos valores, das crenças, enfim, do comportamento do indivíduo, também é foco do design gráfico, promovendo através de elementos estético-formais, a representatividade gráfica de valores tangíveis e intangíveis. Percebe-se então um universo interdependente, complementar, composto por elementos constitutivos de um único propósito: IDENTIFICAÇÃO.
Não se sinta incomodado então, com a estampa de uma camiseta, com as cores de uma embalagem, com o encarte de um CD… acredite ou não…eles foram concebidos com o propósito de chamar a sua atenção, afinal de contas, dizem alguns especialistas, somos bombardeados com aproximadamente 3000 mensagens de marketing por dia. Como diferenciar-se neste campo de batalha então? A linguagem gráfica não deve ser utilizada como mero “embelezador” e sim, deve ter alma, conteúdo. Deve atingir ao seu público de forma a criar uma relação emocional; deve contar então, uma história. Acreditamos ser interessante usarmos nossa imaginação e nos transportarmos para um outro mundo; um mundo regido por padrões que estabeleçam uma única forma de comunicação visual. Uma única estética, cor, formas, padrões, estilo. Imaginemos como seria realizada a escolha por produtos nas gôndolas de um mercado? E como seriam então as vitrines das lojas? Impossível, diriam os mais céticos, mas acredito que ao vislumbrarmos esta realidade alternativa possamos valorizar as nossas diferenças.
Nessa questão, sempre lembramos aquele ditado. “Gosto não se discute, se lamenta”. Ok, mas o que isso tem a ver com moda, música e design gráfico? Não se discute aqui se tal coisa é boa ou ruim, mas que somos indivíduos que buscamos o tempo todo nos expressar, buscamos expressar nossos gostos, nossas vontades através do que consumimos, de como nos vestimos, etc. E esse indivíduo vive o tempo todo sendo puxado de um lado para outro. Se, num extremo, existe a máxima da diferenciação, do ser único, por outro existe a necessidade de identificação com outros da sociedade ao mesmo tempo em que somos abertos à mudança. Então, aqui temos alguns elementos para refletir algo que, no momento que se propôs pensar em música para escrever este texto, apareceu o link com o design gráfico e as estéticas influenciadas pelo rock que estamos vendo nos últimos meses por aí.


Sem dúvida que há muito, a cultura underground e a cultura de rua, de uma forma geral, influenciam a moda (e muitas formas de expressão visuais) e marcam momentos na música. Desde seu surgimento, o rock é um dos bambambãs nessa história e vemos as suas diversas divisões marcando momentos da nossa história que são revisitados a todo instante, através de releituras, homenagens etc. Onde queremos chegar é exatamente nas estéticas das peças de design gráfico relacionadas com a moda, de alguma forma, inspiradas em referências do rock e dos anos 80/90.
Você já percebeu como esses elementos têm aparecido de uma forma bastante intensa nos últimos tempos? Começou com o grafite e todos esses elementos mais “sujos”, mais “pesados”, e o que se vê hoje está evoluindo nesse caminho. Em alguns momentos algumas peças parecem capas de discos da Cindy Lauper, da Madonna (aliás, como não poderia deixar de ser, hein?) com o uso de cores fortes (será new wave?), fontes escritas à mão parecendo vindas de muros pichados e até modelos (na verdade a própria moda está caminhando junto nisso tudo porque muito do que se vê por aí em termos de vestuário também fazem referencia a essa época) com cabelos loiros esbranquiçados, espetados e curtos como a modelo Agyness Deyn (Aggy) que virou ícone da última temporada. Vide a campanha do novo perfume de Jean Paul Gaultier, este também uma referência da moda dessa época.



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A Colette, famosa loja parisiense que conspira a favor da moda, das artes e da música, reuniu diversos produtos entre roupas, acessórios, livros, revistas e CDs trazendo esses elementos “sujos”, “pesados” e que a gente adora! E ainda, a Printemps se uniu a Vogue francesa, sob o comando de Carine Roitfeld, para reafirmar a parceria entre o rock e a moda – a Rock Couture. Do final de agosto até início de outubro, a loja de departamentos parisiense colocou em suas vitrines e na sua coleção os elementos do rock.


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Será que esses já não são elementos suficientes para consolidar essa relação, dizer que tudo caminha junto e que as nossas vontades e nossas expressões, por mais individuais que possam parecer, sempre estão associadas ao tal do inconsciente coletivo. Ontem queríamos uma coisa, hoje queremos ROCK!

Tendências para o verão

A primavera está aí e as tendências para a próxima estação já aparecem em todas as vitrines, mesmo que o calor ainda não esteja firme. Uma das grandes apostas para o verão são as referências florais, étnicas e misturando tudo isso os anos 70 e a estética hippie. Pensando nisso, foi feito um editorial para o Município Mais, que circulou em 18 de setembro, e que foi em cima dessa proposta. A modelo é a brusquense Priscila Rezini (que não é modelo mas que posou ficou super bem nas fotos!), as fotos são do Thiago Bellini e a maquiagem do Alan Pires. Tudo clicado na rua nos arredores de Brusque e produção minha.